sábado, 26 de setembro de 2015

Tu risa (Pablo Neruda)

Quítame el pan si quieres,
quítame el aire, pero
no me quites tu risa.

No me quites la rosa,
la lanza que desgranas,
el agua que de pronto
estalla en tu alegría,
la repentina ola
de plata que te nace.

Mi lucha es dura y vuelvo
con los ojos cansados
a veces de haber visto
la tierra que no cambia,
pero al entrar tu risa
sube al cielo buscándome
y abre para mí
todas las puertas de la vida.

Amor mío, en la hora
más oscura desgrana
tu risa, y si de pronto
ves que mi sangre mancha
las piedras de la calle,
ríe, porque tu risa
será para mis manos
como una espada fresca.

Junto al mar en otoño,
tu risa debe alzar
su cascada de espuma,
y en primavera, amor,
quiero tu risa como
la flor que yo esperaba,
la flor azul, la rosa
de mi patria sonora.

Ríete de la noche,
del día, de la luna,
ríete de las calles
torcidas de la isla,
ríete de este torpe
muchacho que te quiere,
pero cuando yo abro
los ojos y los cierro,
cuando mis pasos van,
cuando vuelven mis pasos,
niégame el pan, el aire,
la luz, la primavera,
pero tu risa nunca
porque me moriría.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Hoje...


Hoje eu me sinto só. E não é uma solidão boa. Sinto-me refém de minhas escolhas. Prisioneira das opções que eu fiz em um tempo que achei que seria bom para mim, talvez até seja um dia, mas hoje já não é. Estou sem amigos e sem pessoas que só desejam seu bem. Não tenho quem abraçar e estou tendo que me contentar com conversas virtuais que deixam meus dias menos pesados e insuportáveis. Hoje eu me sinto só. E não é uma solidão boa, daquelas que a gente necessita para colocar os pensamentos em dia ou, simplesmente, para digerir os inúmeros acontecimentos do dia. Estou saudosa de um cumprimento sincero, de um beijo carinhoso ou um abraço apertado. Um sorriso inesperado do meio da rua, ou a doce alegria de encontrar um velho conhecido inesperadamente dentro do ônibus, na calçada, nos corredores. Hoje eu me sinto só. E não é uma solidão boa, daquelas que gente só precisa de um tempo para cuidar do corpo, da saúde, da cabeça. É uma solidão quase insana, é uma solidão de espaço compartido. É quando você não é dona mais do seu espaço e se sente uma intrusa em sua própria casa. Hoje tenho que esconder minhas pequenas conquistas para me proteger, tenho que camuflar minha trajetória que tanto me orgulha, tenho quase que demonstrar uma alegria que não me pertence e, tenho que fingir que está tudo bem, afinal, sou uma privilegiada de poder ter o que eu planejei a curto prazo (a parte trabalhosa e as escolhas difíceis não são levadas em conta, foi tudo uma questão de “sorte”). Hoje eu me sinto só. E a vida segue. A chuva cai. O frio aumenta. As folhas são levadas pelo vento. Pessoas chegam, pessoas vão, enquanto eu fico, enquanto eu fico, enquanto eu fico...

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Pôres do sol (ou para não me esquecer de que em eu sou...)

Baiona
 

Baiona
 

Santiago de Compostela
 

Santiago de Compostela

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Global Travel Assistance

A internet é um excelente caminho para denunciar serviços, mas, muitas vezes, nos esquecemos de tecer elogios com a mesma intensidade com que atacamos os prestadores destes. Desta forma, quero elogiar a eficiência, agilidade e atenção dos funcionários da empresa de seguro-saúde GTA (Global Travel Assistance). Confesso que quando me vi obrigada a contratar um plano de seguro-saúde, minha primeira reação foi "para que eu vou querer isso? Dificilmente usarei!", mas como era uma exigência tanto do consulado espanhol quanto da CAPES fui obrigada a fazer. Fui até uma agência de viagem e conheci a GTA, o preço era extremamente atrativo e eu resolvi fazer este seguro-saúde por sete meses. No mês passado precisei de atendimento médico (nada grave!) e resolvi entrar em contato com a GTA para ver se seria possível encontrar um médico na cidade em que eu estou. Enviei uma mensagem  pela internet (na parte de "fale conosco") solicitando informações sobre como proceder para a marcação de consulta; duas horas depois um atendente entrou em contato comigo por telefone, perguntando o que eu estava sentindo e pedindo meu endereço para que a consulta fosse marcada em uma clínica mais próxima de minha casa (além de minhas opções de dias e horários para a consulta), disse, ainda, que em até 50 minutos a filial espanhola entraria em contato comigo para confirmar a marcação. Em exatos 50 minutos ligaram novamente do Brasil indagando se a filial tinha entrado em contato comigo, como eu respondi que não, eles me deram um novo prazo de quinze minutos para que isso acontecesse. De fato, poucos minutos depois, uma atendente espanhola (de Madri) me ligou perguntando o que eu estava sentindo e me deu duas opções: ou eu poderia ir até a emergência ou poderia esperar até o dia seguinte (era cerca de 21:00 hrs) para uma consulta no primeiro horário em uma clínica associada com a seguradora. Disse que poderia esperar até o dia seguinte, e a consulta foi agendada para o primeiro horário em uma clínica médica daqui de Santiago de Compostela, cidade em que estou morando atualmente. Logo depois do horário agendado para a consulta, entraram novamente em contato comigo, por e-mail perguntando como eu estava me sentindo e como tinha sido a consulta, qual tinha sido o diagnóstico e se eu precisava de mais algum serviço, salientando que em caso de nova necessidade eu poderia ligar para um número que funcionava 24 horas (saliento que meu primeiro contato aconteceu pela internet, e foi bem eficiente!). O seguro-saúde contratado por mim também permite o reembolso das despesas com medicamentos, mas como o valor do remédio foi muito baixo, optei por não pedir, afinal, eu gastaria mais com o envio de documentos por correio do que com o valor do remédio. Este texto não se trata, de nenhuma forma, de propaganda, mas achei interessante compartilhar minha experiência, sobretudo porque tive muita dificuldade de encontrar referências sobre os serviços das operadoras de seguro-saúde para viagens no exterior, principalmente porque a maioria das pessoas que o contratam acabam não precisando usar... E ser prontamente e bem atendida enquanto estamos sozinhas e doentes em um país estrangeiro merece ser dividido e elogiado!

domingo, 7 de setembro de 2014

Botar de menos

Acredito que sentir saudade é um sentimento único para todas as pessoas do mundo, no entanto, as formas como as pessoas a expressam e a nomeiam diferem a depender da cultura e, lógico, do idioma. Definir saudade para um falante da língua portuguesa é uma tarefa muito difícil, podemos dizer que é sentir falta de alguém, de algo ou de uma situação; podemos também afirmar que é um sentimento que dói e que nos faz triste, podemos falar que é uma sensação muito ruim, ou nostálgica, ou até uma coisa boa (vai saber?). Existe uma expressão na língua galega que me fez pensar sobre essas diferente faces desse sentimento, trata-se de "botar de menos", podemos utilizar essa expressão tanto para sentir falta de alguma coisa (como por exemplo um objeto esquecido) como para referir-se a própria saudade. Fiquei divagando sobre "botar de menos", e cheguei a conclusão que trata-se de algo bastante poético, afinal, a ausência de uma pessoa (ou coisa, ou situação) faz com que nos sintamos menos completos do que éramos quando estávamos juntos; é como se estivesse faltando uma parte da gente, e devo, salientar, uma parte importante que nos fazia plenos. Eu tenho me "botado" de menos a cada dia, e por vezes, de tanto ter uma parte diminuída me sinto pequena, quase nada; mas, apesar te ter uma parte retirada (mesmo que momentaneamente), sei que necessito ser forte e me agarrar aos momentos em que era completa e me preencher até me sentir novamente completa (cheia). Em alguns instantes me sinto bem, mas hoje, por exemplo, me sinto de menos...

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Uma casa ou um lar?

Nós, seres acadêmicos sem coração, temos a mania de categorizar e diferenciar palavras que no senso comum são sinônimos, fazemos isso com cozinha e culinária, com comida e refeição, com casa e lar... Desde os tempos em que era bolsista de iniciação científica fui doutrinada a perceber a "gritante" diferença entre uma casa e um lar; em linhas gerais, casa refere-se a construção física em si, enquanto o lar envolve, a grosso modo, as relações de afeto e cuidado existentes entre os moradores. Dessa forma, é possível haver uma casa e não existir um lar. As concepções de lar e de casa vão muito além das relações familiares, tanto é factível que uma família resida em uma casa, quanto um grupo de pessoas sem relações consanguíneas e de aliança constituam um lar. Eu, que já vivi em um lar, mas que agora resido em uma casa (e conto os minutos para voltar a morar em um lar), posso relatar alguns exemplos que demonstram exatamente o que eu quero dizer. A concepção de lar está intimamente relacionada a questão alimentar (tanto que lar em castelhano significa hogar, o mesmo que lareira), desde o preparo do alimento até o seu consumo; nesse sentido, um leitor precipitado pode interpretar que está havendo uma redução dos lares, já que as famílias cada vez menos socializam, durante as refeições devidos aos diversos compromissos que a sociedade moderna nos impõe, devo alertá-lo que não entrarei aqui nessa discussão já que, devido a sua complexidade, ela merece um post inteiro (quem sabe outro dia?). Recentemente, vivi a experiência de ter duas panelas pequenas de macarrão (do mesmo tipo: penne) cozinhando no fogão, dificilmente isso aconteceria em um lar, seria sim possível duas panelas de macarrão cozinhando simultaneamente, mas possivelmente elas seriam de tipos diferentes, visando a satisfação de distintos gostos alimentares entre os comensais. Extrapolando o âmbito alimentar, o cuidado com o outro está presente somente no lar, não refiro-me ao cuidado exclusivamente como formas de carinho, afeto ou algo mais emocional, refiro-me ao seu sentido mais superficial, como o fato de questionar se o outro está bem (pois está com uma aparência abatida, por exemplo), se precisa de alguma coisa, se pode ajudá-lo em alguma tarefa. Neste sentido, o cuidado que descrevo pode ser confundido com algumas regras de convivência, na verdade, eu acredito que o respeito por essas regras, além de sinal de educação e altruísmo, também significa esse "cuidado" a que me refiro, pois ao respeitar o lugar do outro, eu demonstro que me preocupo com seu bem-estar. Quando compramos ou alugamos um apartamento, ele é somente uma casa, que aos poucos pode se tornar um lar ou continuar sendo uma casa, no seu sentido mais literal. Quem possibilita essa mudança ou permanência são os moradores. Mas, em que categoria se enquadram as pessoas que moram sozinhas, e portanto, não tem outras pessoas para estabelecerem relações? Sinceramente, eu não sei responder essa pergunta (mais uma vez, me questiono sem poder dar resposta!), mas como é possível constituir uma família unipessoal, também acredito que é possível ter um lar formado por uma única pessoa, desde que ela tenha esse cuidado e esse carinho por si mesma e com as demais pessoas que a rodeiam. A única resposta que eu tenho é que não sei viver em casas, necessito de lares para me sentir plena e feliz, preciso cuidar e ser cuidada, e estou certa que isso, além de uma característica pessoal, faz parte da cultura a qual pertenço.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

"Somos pássaro novo longe do ninho"

Quando estamos longe de casa nos damos conta de como nos habituamos com certas situações, e como elas nos dão uma sensação, muito boa, de conforto e segurança. Eu sou um paradoxo ambulante: ao mesmo tempo em que gosto viajar, gosto, mais ainda, de voltar para minha casa, para minha cama e para o meu cheiro, ou seja, já tinha muito claro que, definitivamente, eu não nasci para viver em hotel; a ausência de uma cozinha e a rotina de café da manhã, troca de roupas, chaves na recepção e sorrisos falsos de bom dia, boa tarde, boa noite me irritam. Mas, o que eu, ainda, não sabia era a inesquecível e inexplicável experiência de dividir apartamento com mil pessoas aleatórias! Ok, não são mil pessoas, o apartamento que eu estou morando atualmente só tem SEIS quartos e capacidade para receber OITO pessoas simultaneamente - já que dois quartos possuem cama de casal. Hoje eu não vivo num lar, vivo numa casa no sentido mais puro da palavra. Durante o semestre letivo, talvez ela se torne um pouco um lar, já que seus moradores são fixos e compartilham uma rotina e momentos de sociabilidade. Mas, como estamos nas férias, os moradores são flutuantes e incertos. Desde que eu cheguei já vi seis pessoas diferentes chegarem e partirem, e sequer soube seus nomes, eles foram apenas rostos que se cruzavam rapidamente em áreas comuns, para logo se isolarem em seus quartos e viverem em seus universos particulares. Inicialmente, eu estranhei muito esse comportamento, mas hoje, confesso que fico feliz quando isso acontece, afinal a minha individualidade e o meu espaço também são preservados, sobretudo depois que tentaram entrar em meu quarto, imaginando que estava vazio, para mexer em minhas coisas... Ou ainda, a indescritível sensação de acordar e encontrar a cozinha imunda e cheia de louça suja na pia, ou então, não encontrar garfo em nenhuma das gavetas ou escorredor, porque todos estão sujos dentro de um dos quartos. Também tem a questão dos distintos hábitos individuais, ok que isso cheira a Antropologia e merece uma interpretação mais apurada, mas dane-se o altruísmo quando inventam de ouvir música alta, lavar roupa, discutir relação por skype e cozinhar entre as 11 da noite e as 4 da manhã! No entanto, estaria sendo extremamente injusta se não pontuasse os fatores positivos dessa experiência, também há pessoas doces e simpáticas com as quais consegui estabelecer algo muito próximo de uma amizade, uma delas só passou um final de semana, mas a outra continua aqui, e permanecerá mesmo depois que eu for embora (ela já está morando em seu quarto há mais de cinco anos), também devo reconhecer o cuidado da dona (sobretudo depois do episódio do relato da tentativa de entrar nos quartos) que vem várias vezes por semana ver se estamos todos bem e se estamos precisando de alguma coisa. Aos poucos estou me acostumando com tudo isso, mas conto os dias para novamente viver em um lar (mesmo que ainda não seja o MEU lar).